Enquanto ele não caia em si
ela já não cabia em e se…
Autor: Angélica Padovani
Das verdades
Conversando com um velhinho durante o trajeto do VLT que vai da Praça Mauá até a Cinelândia, ele me perguntou: Você gosta de literatura?
Gosto tanto que escrevo (pra dentro) disse eu.
Egoísta! sentenciou ele.
Covarde! sentenciei-me
de quando os ponteiros se acertam
Ela disse: Me apaixonei por este relógio.
Eu disse: Já era hora!
Das pausas
Trocávamos mensagens enquanto o barbeiro passava a máquina três na minha cabeça.
Meus cabelos caiam sobre o texto como se fossem vírgulas,
se instalando confortavelmente entre as palavras
e foi assim que acabei separando o sujeito do seu predicado.
Do usucapião
Ele havia tomado posse de algumas frases de forma mansa, até mesmo pacífica, eu diria. Algumas já estavam sobre seu domínio há tantos anos que lhe vestiam como uma luva. Os proprietários, talvez por ignorarem, nunca as reclamaram. E foi assim que ele se tornou uma referencia de pensamentos brilhantes e lhe diziam gênio. E sim, ele era.
Da inveja
Acho um absurdo os desenhos animados falarem inglês melhor do que eu.
Da Telestesia
– Hoje escrevi um email [mentalmente] pra você. Você leu?
– Li e respondi [mentalmente]. Você não leu?
– Não. Fui [mentalmente] checar e estava na caixa de spam.
Das noitadas
Eu vexamo
Tu vexamas
Ele me chama: -Vamos embora!
Para o Ralph
Dos verbetes
Poeta s.m. Escritor intransigente que acha que pode prescindir da vírgula.
Do porquê I Love Ju
eu disse: Droga! Arranhei meu pé nessas malditas pedras portuguesas.
ela disse: Será que em Portugal elas são apenas pedras?