O sorriso é côncavo ou convexo?
Autor: Angélica Padovani
das promessas
Por que eu deveria beijar sua boca?
Para me dar sua palavra.
De quando a gente se desloca
Outro dia A. me contou uma história que falava do Congo , dos elevadores em Kinshasa nos anos 80. Seu pai, de passagem por ali, acompanhou a implantação do Hotel Intercontinental. Era a primeira vez que as pessoas do lugar viam um elevador: uma caixa mágica aonde as pessoas entravam em um lugar e saiam em outro. Tinham medo.
Em pleno século XXI, na Espanha, não muito longe de ser África, eu vivi a mesma sensação que os congolenses nos 80. Quando entrei no pássaro de ferro no Brasil e saí em Barcelona deixei muita coisa atrás. Pessoas queridas que partiram sem que eu pudesse chegar a me despedir. Tenho uma relação estranha com os mortos. Quando uma pessoa próxima a mim morre e não chego a tempo de ver o seu corpo vazio de sentido, a imagem dessa pessoa continua me perseguindo pela vida a fora. Por exemplo, hoje eu vi a mãe de uma amiga atravessando a rua e não demorei em perceber que a imagem que eu via já não era matéria e foi aí que me lembrei da história de A. Será que quando a gente morre em lugar de ir pro céu vai para outro país? Um ataúde na realidade não passa de um elevador intercontinental? Uma caixa mágica onde as pessoas entram em um lugar e saem em outro? A eu que saiu dali e desceu aqui é a morta ou a viva?
Das traduções
Assistindo TV, emitiam uma dessas séries de investigação forense.
A equipe da Dra. Brennan vai ao velório do Dr. Hank Reilly, um colega de trabalho, que de acordo com a autopsia, morreu de um enfarte. Quando a Dra. Brennan vê o defunto, encontra umas lesões que não apareciam no informe do legista. Pede a equipe para investigar a verdadeira causa da morte de Reilly e descobrir o culpado.
Fazem tanta confusão no velório que acabam roubando o corpo.
Uma das colegas de trabalho da Dra. Brennan (Ângela), desconcertada com a situação, pergunta ao Agente do F.B.I. (Booth) o que estava acontecendo ali e por que haviam roubado o corpo?
O Agente responde: Brenna acha que o corpo do Dr. Hank foi traduzido.
Ângela : Foi o quê?
O Agente: TRADUZIDO. É a linguagem policial para dizer ASSASSINADO.
Do vestir
Como na Roupa Nova do Rei o palhaço está nu.
Eu vi ele na praia. Não vestia nada além da sua alma. Bailava com seus braços uma coreografia-malabares em harmonia com sua bola de cristal.
Abracadabra!
A bola flutuava e guardava o mundo dentro.
Não foi o futuro o que eu vi naquela bola de cristal, mas meu presente.
No meu presente virei menina: O Palhaço está nu!
Mas diferente do rei, ele sabia.
Do que você escuta assistindo TV
Canal quatro. A paciente sofre amnésia.
Quando a jovem diz a H.que se sente mal por não saber quem ela é, H. responde: Pode ficar tranqüila. Logo aparecerá um marido ou uma mãe, alguém… para te dizer quem você é e como deve agir.
Dos pensamentos
Me aproximei da banca com uma nota de 20 euros na mão. O moço da banca pegou um bilhete de metrô e me deu sem que eu pedisse. Eu sorri. Ele disse: Li seus pensamentos. Peguei o bilhete, meu troco e fui embora. Quando virei a esquina percebi que havia perdido o bilhete. Voltei e disse: Nunca mais leia meus pensamentos, ok? Os bilhetes de pensamentos lidos são como os pensamentos, se perdem facilmente.
Das constatações
Éramos quatro debruçados encima de uma pequena folha de papel: as instruções, escritas e ilustradas, de uma agulha para costurar o couro a mão. Enquanto uma lia, nos limitávamos a olhar os desenhos. L. contou como achava que funcionava a agulha e C. falou que ele estava errado. As instruções estavam em inglês e como L. não sabia inglês, deveria desistir de achar, pois não conseguiria entender. Mas logo eu me toquei que ainda que as instruções estivessem em inglês, eu via os desenhos em português, assim como estou certa que L., por sua vez, via em castelhano. Ainda que as pessoas insistam em “uma língua universal”, os olhos continuam olhando na sua própria língua.
De quando o trava-língua salva
Eu disse: Levo três dias triste. Como os três tristes tigres que comem trigo em um trigal.
Ela disse: Um tigre, dois tigres, três tigres. Entigrados são felizes. Vivem como tigres entigrados porque entigrados tigres são.
E rimos.
Das projeções
Ele olhou a foto e disse que eu tinha cara de santa.
Respondi que sempre fui santa, até que o cinema e a literatura me corromperam.